Possivelmente o maior valor histórico dado ao Castelo de Wartburg está atrelado a um dos eventos mais importantes da trajetória de Martinho Lutero em todo o processo da denominada Reforma. A Reforma foi um movimento "divisor de águas" que fez terminar uma era histórica e fez nascer outra. Foi um evento que não nasceu pontualmente com Lutero apenas e muito menos foi concluido com ele também. Apenas Lutero foi o homem que surgiu no tempo específico, no contexto social específico tanto para a religião mundial quanto para os rumos políticos mundiais também. Houve muitos elementos pré-reformistas e da mesma forma muitos elementos pós-reformistas, contudo, o que queremos destacar é a ligação específica entre o Castelo de Wartburg e Martinho Lutero.

Entre 1521 e 1522, em Wartburg, Lutero traduziu o Novo testamento da Bíblia para o alemão e foi publicada em 1523 na cidade de Wittenberg

 

Frederico III

No percurso da Reforma, corria o ano de 1521 quando Lutero havia acabado de enfrentar toda a corte papal e também o próprio imperador alemão em pessoa, o poderoso Carlos V. O imperador e os enviados papais exigiram que Lutero se retratasse das idéias reformistas que ele estava propagando e, justamente por ele não ter se retratado, todos sabiam que secretamente era certo que a cabeça de Lutero iria "rolar", de uma forma ou outra. Seria apenas questão de quando e onde. Ao final das conversações, Lutero estava a caminho de casa quando, passando por uma floresta, foi sequestrado e levado ao Castelo de Wartburgo. Sem saber, Lutero tinha assim sido salvo e quem arquitetou tudo foi Frederico III, "O Sábio", Duque da Baviera e Príncipe-Eleitor da Saxônia. Um Príncipe Eleitor era alguém que tinha poderes de eleger, juntamente com outros pares, o próximo imperador da Alemanha. Assim sendo, sua força política era tal que ninguém ousava enfrentar o que ele queria, nem memo o imperador em pessoa. Com tal poder, ele salvou a vida de Lutero e o manteve hospedado no castelo de Warburg por mais de um ano até que os ânimos se acalmassem.

Até dezembro de 1521, Lutero escreveu principalmente folhetos sobre confissão, monasticismo e missa sagrada, mas depois se voltou para uma tarefa mais extensa: a tradução do Novo Testamento para o alemão.

Lutero não foi o primeiro a abordar uma tradução alemã da Bíblia. Até 1521 já havia quase vinte versões alemãs publicadas. No entanto, eles eram voltados principalmente para clérigos, com base na tradução latina da Bíblia, a Vulgata e eram frequentemente escritos em um dialeto regional e também se diz ter sido mais empolgado lingüisticamente. Lutero, por outro lado, escolheu os textos originais em grego e hebraico como base e os traduziu para o idioma saxão e por isso foi entendido praticamente em toda parte na Alemanha.

Para isso, Lutero escolheu um estilo lingüístico que enfatizava ampla inteligibilidade, como sugere em sua carta de interpretação: “Você não deve perguntar às letras dos idiomas latinos como se deve falar o alemão, como fazem esses burros. Você precisa ouvir o falar comum de uma mãe em casa, a dos filhos nas ruas, a do mercador comum, notar como eles falam e depois transmitir de tal modo que todos eles entendem e percebem que você fala alemão com ele ”.

Lutero concluiu a tradução - mesmo com a ajuda de seus colegas da universidade em Wittenberg - após apenas onze semanas. Quando ele finalmente sai de Wartburg, leva consigo os manuscritos e em 21 de setembro de 1521 é lançado o tão esperado livro. A tradução de Lutero do Novo Testamento, mais editada e revisada, aparece como uma obra impressa na escandalosamente alta edição de 3000 cópias. A “Bíblia de setembro”, como é conhecida, seria esgotada tão rapidamente que a próxima edição ocorreria apenas três meses depois.

No entanto, outros doze anos se passam antes que a Bíblia completa, Velho r Novo Testamento, seja totalmente traduzida, o que ocorre só em outubro de 1534. Segundo estimativas, a Bíblia de Lutero logo seria encontrada em cada quinto agregado familiar alemão, mesmo que nem todos soubessem lê-la. Por causa disso também havia até livros de tradução/instrução para entender a Bíblia de Lutero. A razão é porque, embora Lutero tentasse usar o alemão geralmente compreensível, os termos individuais não eram familiares em todas as áreas do idioma alemão, já que até então a Alemanha era um país com muitos dialetos, chegando até memso que uma parte do país não entendesse a outra. Levaria ainda algumas centenas de anos até que uma área de fala alemã mais ou menos uniforme fosse formada, também inspirada na tradução da Bíblia de Lutero.

Até então nehum alemão que não fosse clérigo podia ler a Bíblia Sagrada, pois inclusive a igreja da época até impedia que fosse entendida, passando a idéia de que qualquer entendimento bíblico só poderia ser dado por quem fosse clérigo. Em tese, mesmo que um homem comum lesse na Bíblia que dois mais dois é quatro, valeria somente a explicação do clérigo de que a resposta seria cinco e ninguém poderia dizer nada ao contrário !!!

Com o surgimento da Bíblia Sagrada no idioma alemão e não mais apenas no latim, grego e hebraico (e ainda por cima com o nascimento da imprensa de Gutenberg), já não era mais impossível alguém possuir uma Bíblia Sagrada. Até então era caríssimo alguém ter um exemplar da Bíblia Sagrada pois literalmente ela era feita uma por uma, escrita à mão letra por letra. Com a popularização e o barateamento do custo de ter uma Bíblia Sagrada, isso quebrou o jugo papal sobre todo ser humano que gostaria de entender diretamente na Palavra o que Deus transmitia, ao invés de ter o entendimento "tercearizado" pelos clérigos. É por isso que se cunhou um dos cinco "solas" da Reforma, o "sola scriptura", ou seja, "somente as escrituras". Com isso era a Palavra de Deus "in loco" que mostrava a verdade ao homem, e não mais era o clérigo quem as explicava somente, muitas vezes com interpretações tendenciosas particulares. É por isso que a Bíblia de Lutero foi o início do fim de uma era de subjugação que vinha perdurando por séculos e era por isso também que muita gente queria ver Lutero morto. Mas ... no caminho tinha o Duque Frederico com seu castelo de Wartburg.